quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Quem decide é o soberano

Tomando por base o texto “Vida nua” escrito por Peter Pál Pelbart, conseguimos entender a relação da vida com a política, e como ambas andam juntas.
Para iniciar a compreensão de biopolítica é necessário estabelecer dois significados: “zoé” (sendo o “simples fato de viver”) e a “bios” (sendo “a forma de viver”). 

Ao longo da história, a vida esteve submetida por uma soberania que a separou das suas diversas formas. Com o aparecimento das técnicas de individualização e o totalitarismo, a vida nua foi se politizando, sendo um evento decisivo da modernidade, segundo Foucault. 
O momento em que a política (soberania) se envolve e toma parte da vida nua (zoé) é que se encontra o significado, biopolítica. Quando a política faz do homem um sujeito político, acontece uma politização da zoé e bios (zoé-bios)

Um exemplo de Estado totalitário e biopolítico é o nazismo, que centralizou um poder sobre a vida e praticou tarefas consideradas políticas em cima da mesma. No caso, os judeus foram excluídos do direito da vida nua, sendo controlados por um poder soberano.
Analisando a biopolítica desde seus primórdios, o filósofo Agamben toma como ponto de partida a figura do homem matável e insacrificável, ou seja, sujeito a morrer , porém, não em razão de um sacrifício, o que o faria morrer com “honra” a um determinado fator. O Homem Sacro pode morrer sem que isso seja considerado um crime, um homicídio ou execução, saindo das regências do Direto Humano (a vida), entretanto, não passando pela esfera do Direito Divino. O direito a vida se faz em contrapartida a um poder que ameaça a vida sacra de morte.
Para entendemos melhor o Homo Sacer e a biopolítica, analisemos os dizeres acerca do Campo de Concentração, segundo Agambem. Para ele, o campo de concentração é onde há algo que, em estado de exceção, é teoricamente inválido, e o homem sem poder recorrer aos seus direitos devido a isso, poderia ser assassinado sem que o fato fosse tomado como um crime, e sem estar sujeito a qualquer tipo de sansão. Em suma, se o Soberano tem o poder de decidir - em estado de exceção- , quem poderia perder sua vida sem que isso fosse considerado um crime, na época do biopolítico esse “poder” de escolher pela vida ou não, tenderia a se emancipar do estado de exceção para vir a tornar-se um poder de decidir a partir de qual momento uma vida deixa de ser politicamente importante ou interessante. Na biopolítica moderna, o Soberano é quem decide qual o valor da vida, ou se ao menos ela possui algum valor.

Em meio a sociedade de consumo e o controle que ela exerce sob o homem, é possível perceber quem é o Soberano na situação. Se você não consome, não estimula seus prazeres humanos, como satisfação e felicidade, resta apenas a vida em estado de Zoé, onde apenas há uma existência, sem fundamento racional ou intelectual, como uma pessoa em estado vegetativo.

Tomando por base essa linha de raciocionio, é como se disséssemos que todos os africanos vivem em questão de Zoé em relação à sociedade de consumo, já que eles não são consumidores assíduos de mercadorias supérfluas, ou ao menos das primordiais, eles não fazem parte do grupo da bios, a forma de vida política. Muitos deles nem ao menos tem um documento de identificação, ou qualquer outro fator que o traga a “vida politizada”. 

Vivemos sob domínio e controle total do consumismo e suas facetas, buscando cada vez mais a felicidade por meio do materialismo. Dessa forma, o Soberano sempre decidirá: a vida de quem vale a pena?